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A Inteligência por trás da ocupação do Morro da RocinhaPostado em: 6 de dezembro de 2011

 

A falta de efetivos policiais para novas ocupações era de conhecimento público, tanto que o Exército foi levado a permanecer no Complexo do Alemão por mais algum tempo, enquanto a Polícia Militar se empenha em formar mais policiais. Nos dias que antecederam a invasão da Rocinha, outras grandes favelas do Rio de Janeiro estavam conflagradas, como a Maré, Manguinhos, Vila Kennedy, Antares, em meio a constantes operações policiais e nada indicava realmente que a Rocinha, ocupada por uma facção criminosa que se notabilizara por não conflitar com as forças policiais, fosse ser priorizada no cronograma de ocupações. A Rocinha, juntamente com a favela vizinha do Vidigal, se situa numa área nobre da cidade, em meio a bairros de alto poder aquisitivo e além de fornecer drogas no varejo para praticamente toda Zona Sul e Barra da Tijuca, ainda abastecia diversas outras favelas da cidade. Na Rocinha foram encontradas as primeiras destilarias de drogas da cidade, demonstrando que, além do comércio, os criminosos de lá também estavam se lançando às práticas de produção, a partir de matéria prima importada. Em face dos grandes eventos que acontecerão no Rio de Janeiro, já havia sido prometida a ocupação daquela área; contudo nem tudo que os políticos prometem a polícia pode realmente realizar… Certamente a Inteligência teve um papel preponderante nos acontecimentos que precederam a invasão. Nas quatro semanas que precederam a invasão das duas favelas, autoridades de segurança pública começaram a aventar publicamente a retomada daquela área. Os pronunciamentos e os anúncios na mídia se tornaram mais constantes e isso certamente influiu nos ânimos dos criminosos, inclusive no de seu líder, o Traficante conhecido como Nem. O chefe do tráfico chegou a fazer uma festa de despedida (uma versão funkeira do último baile da Ilha Fiscal) e ao que consta, com os nervos aflorados, consumiu drogas em excesso e acabou indo parar no posto de saúde da comunidade. Com certeza as coisas estavam muito tensas para os criminosos da referida facção, os quais alicerçavam sua hegemonia numa ampla rede de colaboradores policiais, muitíssimo bem pagos e que, aparentemente agora, nada poderiam fazer para salvar lhes salvar do destino que os esperava. Embora este articulista não seja particularmente favorável a ideia de se avisar previamente os criminosos sobre as operações de retomada, sou obrigado a convir que o emprego de tal tática se justificava naquelas duas comunidades. Ambas as comunidades ocupam uma área extensa de encostas, altamente edificada, onde mais de 60.000 pessoas se distribuem em edificações aglomeradas, as quais têm, no mínimo, três pavimentos. A densidade populacional (resultante da divisão do número de habitantes por quilômetro quadrado) é muitíssimo superior a do Complexo do Alemão, espalhados por um conjunto de poucas ruas, íngremes, estreitas e entrecortadas por um incontável número de becos e vielas. Naquela topografia, caso os criminosos se dispusessem a resistir, não se poderia garantir a integridade da população em meio ao combate e certamente o quantitativo de baixas inocentes seria altíssimo. As informações sobre o ânimo dos criminosos, o aviso de quando se iniciaria a operação, juntamente com toda a veiculação da mídia de que poderia ocorrer um banho de sangue caso houvesse reação dos bandidos, combinaram-se num hábil componente de guerra psicológica, os criminosos debandaram e diversos deles foram presos tentando empreender fuga. Infelizmente, o cerco de uma área daquelas dimensões é algo extremamente difícil e houve informes de criminosos (diversos dos quais não tinham passagem pela polícia, logo, não eram conhecidos) se evadindo misturados a população ordeira que diariamente segue para o trabalho, fugindo em veículos, bem como relatos de criminosos se embrenhando por trilhas na mata. Iniciada a operação no dia 13 de novembro, a polícia já deveria saber que não haveria reação organizada do tráfico. Novamente os efetivos policiais foram conduzidos nos blindados de transporte de tropa do Corpo de Fuzileiros Navais, o qual preferencialmente empregou as últimas versões do CLAnf (Carros de Lagarta Anfíbios do tipo LVTP-7), que são dotados de uma blindagem suplementar nas laterais do casco, para aumentar a resistência do veículo contra ataques de munições do tipo “carga oca”. A operação mostrou que a polícia assimilou lições advindas das operações nas favelas da Leopoldina. Embora transportando sua dotação de armamento e munição, não se permitiu que os efetivos policiais portassem grandes mochilas, de forma a corroborar as acusações de pilhagem. Nos briefings, muita ênfase foi dada ao fato de que a população deveria ser preservada, que a polícia deveria se comportar como uma autêntica força de libertação e não se deixar ver como um grupo opressor. Panfletos foram jogados de helicópteros concitando os cidadãos a colaborar indicando traficantes escondidos, bem como paióis de drogas e armas. Policiais Federais e efetivos das Corregedorias foram posicionados veladamente na área circunvizinha a fim de detectar e prender policiais que se acumpliciassem com traficantes e os ajudassem na fuga. As operações na Rocinha também permitiram as polícias fluminenses demonstrarem novos equipamentos e recursos tecnológicos. Os dois novos helicópteros policiais Bell Huey II, de procedência americana, com maior capacidade de transporte de policiais e melhor proteção blindada, operaram na retomada. Dessa vez toda a área da operação foi declarada zona proibida para o voo e não houve helicópteros de emissoras de TV sobrevoando a Rocinha e o Vidigal. Um novo helicóptero Esquilo, dotado de um sofisticado sistema de câmeras de TV com zoom para operar de dia ou de noite, permitiu monitoramento das áreas ocupadas pelos traficantes em tempo real, a partir de posições seguras a um quilômetro de altura, retransmitindo imagens para um centro de comando em terra e para os policiais no campo. Uma incursão de policiais civis numa área limítrofe à mata, monitorada a partir do céu com os novos sensores eletro-óticos bem como, em terra, por câmeras transportadas pelos próprios policiais, deixou-nos com a impressão de assistíamos a operações semelhantes a que culminou com a morte de Osama Bin Laden. A operação mostrou que a capacidade de comando, controle e integração das polícias evoluiu muitíssimo. No solo foram capturadas mais de 185 armas, incluindo fuzis automáticos BAR, FAL, Para FAL FAP, AK-47, M-16/AR-15, Garand, antigos Mauser de repetição, diversas espingardas, carabinas M1, submetralhadoras, pistolas, dezenas de carregadores sobressalentes (alguns dos quais com capacidade de 100 tiros), granadas de mão de procedência estrangeira, dois lançadores de foguete antitanque M72 de 66 mm e mais de 20.000 cartuchos de munição! Foram apreendidas ainda centenas de quilos de entorpecentes, assim como 60 kg de pasta base de cocaína, a qual poderia ser multiplicada pelo processamento nos “laboratórios” montados pela criminalidade naqueles locais. Além de 47 presos, 75 motocicletas roubadas, furtadas e com busca e apreensão solicitada foram recuperadas nessas comunidades no curso da operação. No curso da operação, um sucesso por ter logrado retomar toda aquela importante área sem o disparo de um único tiro, logrou-se prender o traficante Nem. Há muito procurado pela polícia, ele tentou sair da comunidade na mala do veículo de um advogado, supostamente o Consul- Honorário do Congo no Rio de Janeiro. Transportando uma grande quantia de dinheiro, o traficante teria tentado subornar policiais militares sem sucesso. Após o ato da abordagem houve problemas de coordenação e divergência entre os efetivos policiais militares (que detiveram o criminoso) e civis, que chegaram depois a cena para conduzí-lo para a Delegacia jurisdicionante; contudo, o criminoso acabou sendo conduzido para a sede regional do Departamento de Polícia Federal. Depois da prisão de Nem, autoridades policiais disseram que a rendição do traficante vinha sendo negociada secretamente há mais de um mês, mas não ficou claro se ele estaria se dirigindo à policia para entregar-se ou se o seu objetivo era mesmo o de fugir. Infelizmente, a prisão do, até então, criminoso mais procurado do Rio de Janeiro ainda carece de esclarecimentos que não foram prestados para a sociedade e nós que vivemos no Brasil certamente estamos fartos de histórias mal contadas. Com a prisão desse chefe do tráfico, com certeza, há hoje muita gente que não deve estar desfrutando um sono tranqüilo. Baseado nas declarações do próprio Nem, alegando que gastava uma parcela expressiva de suas receitas pagando propinas, é mais do que necessário agora que possamos saber quem se locupletava com aquele dinheiro sujo; da mesma forma, é importante que possamos ver essas pessoas indiciadas, julgadas e apenadas, como forma de exemplo nessa sociedade onde as condutas ilícitas em não são privilégio das instituições policiais e brotam em cascata, nos Palácios, Ministérios, Congresso Nacional, nas Assembléias Legislativas, Câmaras Municipais. Para os profissionais de segurança, fica a certeza de que, como não existe mágica no processo de pacificação. Uma vez refeita do grande golpe sofrido, a criminalidade tende a se robustecer em outras áreas do Estado do Rio de Janeiro e muitos daquele contingente de homens e mulheres, com ou sem ficha criminal, que antes se sustentavam no tráfico daqueles morros deverão migrar para outras modalidades de crime, sair em busca de suas vítimas “no asfalto” e ainda não darão muito trabalho. Estejamos preparados para isso!

 

Vinícius Domingues Cavalcante, CPP
Membro do Conselho de Segurança da
Associação Comercial (RJ) e Diretor da
ABSEG vdcsecurity@hotmail.com