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Escolas de Mogi apostam no diálogo para combater ‘desafio quebra-crânio’ e garantir segurança entre estudantesPostado em: 19 de fevereiro de 2020

Um desafio que ganhou a internet está preocupando pais, professores e, inclusive, estudantes do Alto Tietê. É o “quebra-crânio”, em que dois adolescentes derrubam um terceiro, que cai de costas e corre o risco de bater a cabeça. A Sociedade Brasileira de Neurocirurgia chegou a se manifestar sobre a necessidade de reforçar a atenção com crianças e adolescentes por causa dos perigos do desafio.

Na região, escolas colocam o assunto em pauta nas salas de aula para conscientizar os estudantes, como é o caso de uma instituição de ensino particular de Mogi das Cruzes.

Alunos do 4º ano do ensino fundamental mostram que sabem bem a importância do diálogo. Por isso, quando ouviram falar do desafio, levaram o tema para sala de aula.

“Os meus amigos comentaram e aí gente que levantou o assunto. Isso pode levar a varias coisas, tipo, não conseguir mexer algumas partes do corpo, quebrar alguns ossos, essas coisas”, comenta a estudante Laura Mota Cardoso.

A professora Alessandra Peres percebeu que era hora de discutir o assunto e fez um bate papo com os alunos. Ela descobriu que existiam vários desafios diferentes e se prontificou a mostrar para as crianças o perigo de cada um.

“Foi um tema que foi abordado na sala de aula e cabe a nós, como educadores, [e] os pais em casa, mostrar o perigo. Alguns até já comentaram hoje na sala de aula de uma outra brincadeira que está surgindo, que é uma da blusa. Eles passam pela frente do colega e puxam o pé. O colega cai com a frente no chão. Outra brincadeira também muito perigosa”, relata a professora.

Os desafios se espalham pela internet e acabam atraindo crianças e jovens que, muitas vezes, não têm noção dos riscos. O desafio do “quebra-crânio”, por exemplo, ficou mais conhecido depois que um youtuber famoso gravou um vídeo com a própria mãe.

Depois disso, vários jovens reproduziram o conteúdo. O youtuber reconheceu o risco e publicou outro vídeo pedindo desculpas. Ele chegou a fazer um alerta, mas o desafio já tinha viralizado. No final de 2019, depois de uma suposta brincadeira como essa, uma jovem de 16 anos morreu em Mossoró, no Rio Grande do Norte. Ela bateu a cabeça no chão e teve traumatismo craniano.

Preocupada, a diretora Luciana Rossato, de uma outra escola de Mogi das Cruzes, explica que decidiu passar de sala em sala para orientar os alunos sobre os perigos.

“A gente faz toda a conscientização dos alunos para que eles sejam orientados naquilo que não se deve fazer, para que eles passem aos pais também essa situação. Alguns não tinham conhecimento ainda do assunto, passam a ter por nosso veículo de informação. Isso é uma parceria muito boa que a gente tem”, diz.

A direção também incentivou as alunas a gravarem um vídeo para alertar os jovens. Agora eles têm consciência dos riscos e sabem que, com a suposta brincadeira, podem arriscar a própria vida e a dos amigos. “Eu falo para eles que amigo é para segurar, para levantar, nunca para derrubar. Quando a gente fala a mesma língua, o sucesso é garantido”, conclui a diretora.

Perigo para a saúde

De acordo com o neurologista Guilherme Augusto Rodrigues do Prado, o desafio pode expor o paciente a traumas irreversíveis, pois, como é feito de surpresa, pode provocar lesões de alto impacto.

“Se você observar as imagens, ninguém estava esperando por aquela situação. O fato do paciente estar naquela situação de desassistência, vai fazer com que aquilo tenha algum grande impacto sério na vida”, comenta.

O especialista diz que, na queda, o cérebro recebe um forte impacto, que pode gerar lesões tardias semelhantes às causadas por golpes de artes marciais, quando aplicados sem defesa ou proteção.

“Os traumatismos do crânio, quando a pessoa cai de costas, a gente sempre observa, principalmente, o crânio, o cérebro propriamente dito e a coluna cervical. Um trauma de face é esse que a criança se projeta adiante, pode obviamente ter algum tipo de traumatismo desde face, nariz, dentes, até, obviamente, o crânio também, propriamente dito, falando do cérebro”, afirma Prado.

A coluna também pode ser prejudicada, de acordo com o neurologista. Entre os principais problemas estão as lesões medulares, causadas pelo impacto sobre a coluna vertebral.

“[Age] fazendo com que ela perca elementos de sustentação. Por conta disso, a medula pode ser seccionada ou, em algum grau, comprimida. Isso decorre a lesões que vão desde perda de força até a completa ausência de força, no caso do trauma de medula”.

Ele ainda faz um alerta e lembra que a reabilitação após uma lesão na cabeça ou na coluna é difícil. Diferente da medula, segundo Guilherme, o cérebro não consegue se restabelecer com facilidade.

Por isso, o médico dá dicas para um resgate seguro das vítimas de quedas. “Numa queda como essa, a primeira coisa que você deve fazer é não mexer na vítima. A vítima já está fragilizada, ela já teve o trauma, as doenças já estão acontecendo. Você não pode, no anseio de tentar ajudar os pacientes, piorar mais esse quadro. Mobilize o paciente, deixe quieto, não mexa em hipótese alguma nem com a cabeça, nem com a coluna, e chame o Samu, chame ajuda”, conclui.

Atenção à criança e ao adolescente

Para a psicóloga Fabíola Passos Almeida, a conscientização dos jovens deve ser a principal ferramenta para que desafios perigosos não sejam seguidos.

Ela diz que a situação é típica entre adolescentes, mas que a comunicação entre pais, alunos e a comunidade escolar pode ajudar. No entanto, declara que a proibição e a repreensão drástica devem ser evitadas, pois podem servir de estímulo.

“Se está viralizando, se na internet todo mundo está fazendo, o adolescente sente essa necessidade de pertencer. Uma outra coisa é que é essa coisa da brincadeira. Em certo ponto, certa medida, isso pode fugir do controle, que é o caso dessa brincadeira, mas essa coisa da pegadinha é uma coisa até da nossa cultura de certa forma”, comenta.

“Eu acho que proibir de uma forma muito drástica leva até um certo estímulo. O que eu sempre oriento as famílias é: vamos nos aproximar dessa cultura. Tem que conhecer qual é o youtuber favorito do seu filho; começou um aplicativo novo? Entra, conhece o aplicativo como uma curiosidade e um diálogo aberto”, fala a psicóloga.